

La Chambre des merveilles, de Julien Sandrel: um romance
sobre tudo aquilo que adiamos viver
Alguns livros emocionam pela intensidade dos acontecimentos. Outros, pela delicadeza com
que transformam situações comuns em grandes reflexões. La Chambre des merveilles, de
Julien Sandrel, pertence à segunda categoria. É um romance sensível, otimista e
profundamente humano, que nos lembra como a vida pode mudar quando somos obrigados a
desacelerar e olhar para o que realmente importa.
A história começa quando Louis, um menino de doze anos, sofre um grave acidente e entra em
coma. Sua mãe, Thelma, vê sua rotina e suas certezas desmoronarem da noite para o dia.
Enquanto organiza o quarto do filho, ela encontra um caderno onde ele havia escrito uma lista
de sonhos e experiências que gostaria de viver. Diante da impossibilidade de saber se Louis
voltará a acordar, Thelma toma uma decisão inesperada: realizar cada um daqueles desejos
em seu lugar, na esperança de que, de alguma forma, essas histórias consigam chegar até ele.
Essa é a premissa do romance, mas reduzir La Chambre des merveilles a uma história sobre
uma mãe e um filho seria simplificá-lo. O verdadeiro percurso narrativo é o de uma mulher que,
pela primeira vez em muitos anos, percebe o quanto estava sobrevivendo em vez de viver. Ao
cumprir os sonhos do filho, Thelma acaba confrontando seus próprios medos, suas renúncias e
a vida que havia deixado para depois.
Julien Sandrel conduz essa transformação com leveza. Mesmo partindo de um acontecimento
dramático, evita o sentimentalismo fácil. A emoção nasce das pequenas descobertas, dos
encontros inesperados e da maneira como a protagonista aprende, pouco a pouco, a recuperar a curiosidade pelo mundo. É justamente esse equilíbrio que torna a leitura tão envolvente: o romance emociona sem manipular o leitor e encontra beleza nos gestos mais simples.
A escrita é fluida, direta e cinematográfica. Os capítulos curtos mantêm um ritmo constante,
tornando a leitura acessível tanto para quem já tem o hábito de ler quanto para quem deseja
retomar esse prazer. Ao mesmo tempo, a narrativa oferece reflexões que permanecem muito
além da última página, especialmente sobre maternidade, culpa, trabalho, prioridades e a
dificuldade que muitos adultos têm de reservar espaço para seus próprios sonhos.
Outro mérito do livro está na universalidade de sua mensagem. Embora a relação entre mãe e
filho seja o centro da história, qualquer leitor pode se reconhecer na sensação de adiar
projetos, viagens, encontros ou desejos à espera do "momento certo". La Chambre des
merveilles nos convida justamente a questionar essa espera. Quantas experiências deixamos
para depois? E se a vida nos lembrasse, de repente, que o tempo é o nosso bem mais
precioso?
Não é por acaso que o romance conquistou tantos leitores e foi adaptado para o cinema. Sua
força está menos na surpresa da trama do que na capacidade de despertar identificação. É
uma daquelas histórias que nos fazem fechar o livro com vontade de olhar para a própria vida
de um jeito diferente.
La Chambre des merveilles é uma excelente escolha para quem aprecia romances
contemporâneos capazes de emocionar sem exageros, personagens que evoluem ao longo da
narrativa e histórias que celebram a possibilidade de recomeçar. Um livro delicado, inspirador e
cheio de humanidade, que lembra ao leitor que, muitas vezes, viver começa exatamente
quando temos coragem de sair do roteiro que imaginávamos para nós mesmos.
—
Resenha por Cristina Deta
Professora de francês há mais de 24 anos, Cristina Deta é formada em Letras, pela UFRJ,
especialista em literatura francesa e criadora do Francês com Cris Deta. Conduz clubes de
leitura dedicados à literatura francófona, nos quais acompanha leitores na descoberta de
autores clássicos e contemporâneos.